Poesias de Rosimeire Leal da Motta
Ouça a voz do meu coração...

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PESSOALMENTE Rosimeire Leal da Motta
Por telefone, não... Preciso lhe falar com urgência. O mais depressa possível. Sem falta, entende? Estar sozinha é ser vazia, é não poder compartilhar suas alegrias e sofrimentos, dividir planos e esperanças. Um só, é ser nada. Deus criou os seres por igual, mas, é a sociedade que o indivíduo vive, que o transforma, o isola... põe medo. Comunicar é uma necessidade geral. Dizer algo pessoalmente, cara a cara. Sentir o interesse da pessoa, aprovação ou reprovação, algum tipo de reação. Todo ser humano necessita do outro: um olhar totalmente direcionado a ele, um abraço cheio de afeto e carinho... Encontre um tempo para mim! Venha conversar comigo. Segure minhas mãos, sentemos no sofá da sala... Tenho tantas coisas para lhe dizer! Aproxime-se... Tenho necessidade absoluta de lhe falar! Ouça a voz do meu coração...
SOLIDÃO Rosimeire Leal da Motta
Caminhando ao léu, mãos no bolso, olhar disperso. Pensamentos sem rumo. O vazio. Ruídos monótonos. O vento soprando. O murmurar do mar ao longe, sobrevoa-lhe um pássaro em vôo rasante. O tempo parado. As horas se arrastam... minutos se transformam em segundos, Finalmente chega a tarde e preguiçosamente vem a noite. Imagens do passado passando em câmara lenta na mente. Recordações tristes, chuvas de lágrimas. Nuvens deslizando vagarosamente no céu. Retorna ao casulo. Quatro paredes, um quarto, tom bege, moreno como a amargura. A porta se abre para o jardim, O verde das plantas lhe entrega um ramalhete murcho de esperança. Um rio perdido escorre pela face... A solidão é isto!
O SER HUMANO É UMA ILHA Rosimeire Leal da Motta
Uma multidão de rostos desconhecidos. Personalidades, fisionomias diferentes. Existência e destinos desiguais. Passos apressados. Ao passar, não deixam rastros. Andam todos próximos. Estão juntos, porém, não unidos. Apenas precisam percorrer o mesmo trajeto. Milhares de pessoas, impossível contar. De súbito, um deles desaparece inesperadamente. Chegou sua hora de partir, deixar de viver. É difícil descrever claramente os transeuntes. São vultos que se movimentam constantemente. Um jovem roubou a carteira de um homem, foi preso em flagrante e excluído do meio dos demais. Com um ato impensado, arruinou todos os seus sonhos, jamais voltará ao convívio da sociedade. Pensamentos não podem ser ouvidos. Cada um conversa consigo mesmo. Confessa as alegrias e tristezas do seu eu. Caminhando e pensando, vivendo a vida de acordo com os recursos disponíveis. Um estudante decide parar no meio da estrada e formar com a voz, sons ritmados e musicais. Conseguiu atrair a atenção de alguns dos passantes, que ficaram imóveis para ouvi-lo cantar. Outros, contudo, seguiram seu caminho. O rapaz queria que alguém o ajudasse, mas, após o término da canção, todos foram embora. O personagem cantante, agora, silencioso, retorna a sua jornada seguindo a rota anterior. Tanta gente junta e o ser humano é uma ilha, rodeado por um grande número de pessoas por todos os lados. Quando poderia haver uma imensa corrente, um elo que une todos os indivíduos, impera a solidão.
TEMPESTADE DA VIDA Rosimeire Leal da Motta
Era a árvore mais bela da floresta. Suas folhas formavam uma linda copa. Seus frutos muito doces. Os pássaros disputavam seus galhos. Cada ser da natureza tem sua história, esta, seu dossiê é demasiado triste. No auge da juventude devastaram a mata ao seu redor. E então, primeiro rarearam seus frutos, depois, o vento arrancou suas folhas amareladas. Não mais recebeu sol e água. Seu tronco se deformou... O ar se tornou poluído... A região se transformou num deserto... Perdeu o vigor de existir. Sua beleza se desgastou, envelheceu precocemente A tempestade da vida pesou sobre ela. Já não era mais ela, e sim, uma caricatura do que foi um dia. Um viajante que outrora passara por ali e descansara a sua a sombra, diante dela tirou o chapéu da cabeça, com as lágrimas escorrendo pela face, perguntou: __ “O que aconteceu com você???”
PRISÃO, DOCE PRISÃO Rosimeire Leal da Motta
O menino sem consciência, armou uma arapuca no quintal da sua moradia para prender alguma ave distraída e faminta. Várias semanas a esperar até que o surpreendente aconteceu: um passarinho entrou na armadilha, comeu o alpiste e em seguida subiu no poleiro e ali ficou a cantar. O pobrezinho escapou de uma gaiola, sentiu fome e havia desaprendido a buscar comida. A visão de algo que lhe era familiar o alegrou e o fez se sentir em casa. Agora estava enjaulado novamente. Há anos que estava preso com um pequeno espaço para voar que se perdeu na imensidão do céu. Fugiu e era dono de si, porém, era tão diferente do que havia se habituado que desejou ardentemente que sua vida retornasse ao que era antes. Há tanto tempo seguia mecanicamente seu dia-a-dia que não compreendia o verdadeiro sentido de viver. Ansiava por ser livre, mas quando encontrou a liberdade não sabia o que fazer com ela. Miraram-lhe com um estilingue, no entanto, se desviou. Aproximou-se de um bando de passarinhos da sua espécie e se esforçou para se integrar ao grupo, mas, não se ambientou. Não fez nenhuma amizade e foi menosprezado. Abandonou-os e partiu. Acostumado a ser prisioneiro, ao ser solto, voltou para a prisão.
AMARGURAS Rosimeire Leal da Motta
Grandes angústias, mente obstruída, visão nebulosa. Embarcação com bombas de sucção retirando as camadas de sujeira no fundo do rio do coração. O material recolhido é transportado às margens, vêm à tona os sofrimentos. O lodo torna os pés inseguros. Escorrem as lágrimas pela face, a tristeza perde o equilíbrio. Águas poluídas, com resíduos do rancor, impróprio para o banho, proibido para a felicidade! Fragmentos de problemas mal solucionados, destroem a natureza ao redor, envelhecem a vida, retardam o crescimento! Afogam-se na lama da baixa auto estima, mergulha de corpo e alma, mas, cospe substâncias com efeito coagulante. O lixo flutua, não afunda. Peneira o ego três vezes. Mais limpo, porém, traumatizado, é conduzido a uma cachoeira. Precipita-se rumo a um outro rio. Deslizando pelos desenganos, chegou num terreno seco e rachado. Restou pouco do seu precioso líquido! No seu caminho encontrou uma semente perdida. Antes de esgotar a ultima gota, conseguiu regá-la! A região agora é desértica, o sol arde. Espantosamente brota uma flor: Ainda há uma esperança! * * * * * E-mail da autora
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